1,2,3 linguasRevista Meu Nenê – dezembro 1998- n° 08

Seu filho já começou a aprender as primeiras palavras em inglês? Isso é muito importante para o desenvolvimento intelectual dele. Desde, é claro, que tudo seja feito no tempo certo, sem cobranças exageradas.

Quem diria que o aprendizado de uma língua depende basicamente de pequenos cliques a serem acionados no cérebro logo após o nascimento. Mais precisamente das conexões feitas entre os 100 bilhões de neurônios – células nervosas que processam as informações. A ligação de um neurônio a outro é chamado de sinapse. Para que isso aconteça, eles precisam ser “exercitados”  por experiências múltiplas. Um recém-nascido, por exemplo, tem células nervosas pequenas e esparsas. Elas só vão se agrupar em redes para processar conhecimentos e sensações quando bombardeadas por estímulos. “Todas as capacidades a serem desenvolvidas pelas crianças dependem do número de sinapses que são formadas a partir de aprendizados recebidos”, conta a pedagoga Júlia M. Manglano, uma das proprietárias do Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento, em São Paulo.

Nesse local, foi importado um método espanhol batizado de “Superbebê” para ajudar os pais a desenvolverem o potencial máximo dos seus filhos até os 3 anos de idade. O ensino de inglês está previsto no desenvolvimento da inteligência linguística, por exemplo. Até os 5 anos de idade estão sendo criadas as conexões responsáveis pelas experiências auditivas”, conta ela, que passou por um treinamento sobre o assunto na Espanha. “Nessa fase, a capacidade de absorção de vocabulário e de entendimento da língua é maior”, diz.

Aliás, os cientistas garantem que para expandir as ligações cerebrais nada é mais desafiador do que aprender um novo idioma. Nessa situação, o cérebro se vê convidado a criar novas combinações para decifrar e armazenar palavras até então desconhecidas. Mas é só na idade escolar, no entanto, que as crianças terão 90% dos seus neurônios conectados. Antes disso, os pimpolhos estão em plena efervescência cerebral, gravando imagens, falas e experiências como “esponjas”. “Até essa idade o cérebro funciona como uma fita virgem, aberto a qualquer aprendizagem e torna-se mais fácil o ensino de uma ou mais línguas”., ressalta a linguista Ednéa Semeghini, da Faculdade de Educação da USP. Na sua opinião, a idade ideal para iniciar o aprendizado de uma nova língua é aos 2 anos, quando os circuitos nervosos estão mais desenvolvidos. “Como nessa faixa etária a criança já pronuncia palavras em português, despertadas pela musicalidade e pelo significado, isso acontecerá também com o inglês”, diz.

Fluência na língua vem aos poucos

Até ser alfabetizado em português, os pais não devem exigir, no entanto, que o filho saiba falar bem o inglês. Em primeiro lugar, é preciso respeitar a etapa de desenvolvimento da criança. “Antes dos 3 anos, por exemplo, ela não está fonologicamente madura para articular perfeitamente todos os sons”,  adverte o linguista Marcello Marcelino, professor da Faculdade de Comunicação da PUC de São Paulo. “Ela sabe reconhecer os sons de sua língua, mas nem sempre está pronta para pronunciar as palavras corretamente.”, explica ele. É o caso do “lh” em trabahar, que normalmente o baixinho costuma dizer “trabaiá”, exemplifica Marcelino.

O amadurecimento completo do aparelho articulatório, segundo o linguista, se dará por volta dos 5 anos. Há outros especialistas no entanto, que dizem que isso ocorre por volta dos 7 anos. Portanto, até essa faixa etária, para o pimpolho que é criado falando as duas línguas, deve-se exigir dele que saiba em inglês o vocabulário e as estruturas gramaticais condizentes aos que já fala em português. “Mas os pais não devem cobrar esse desempenho de uma criança que vai para a escola de inglês apenas duas vezes por semana”, ressalta ele. Nesse caso, o inglês está restrito ao aprendizado de cores, números, frutas… Ele garante, porém, que se o pequeno receber uma educação no inglês e português, poderá assimilar as duas línguas sem sotaque. “Uma das hipóteses para a facilidade no aprendizado é que a criança estaria livre de vícios e “bloqueios”, observa Marcelino.

Sem medo de falar errado

“Sentir curiosidade e não ter medo de cometer erros são fatores que aceleram a assimilação do inglês pelo baixinho”, ressalta Denise Helena Monteiro, professora  da Saint Nicholas’ School, escola de educação inglesa, em São Paulo. Ali, ela dá aulas de reforço em inglês para as crianças da pré-escola, entre 4 e 6 anos. Mas o método de ensino não é nada convencional. Denise senta no chão, em  círculo, com alunos e, por meio de jogos que ela mesma elabora, ensina palavras e frases do dia-a-dia dos pequenos. Jogando dados em tabuleiros onde aparecem palavras e imagens de comidas, roupas, objetos de classe, animais e utensílios de casa, as crianças vão repetindo os nomes em inglês. De início, só frases bem curtinhas, como “bom dia”, “boa tarde”, “me dá o lápis”, “meu quarto é grande”… Aos 5 anos, por exemplo, conseguem montar minidiálogos. “Como ainda não estão alfabetizadas no português, aprendem pela sonoridade das palavras e por meio de alguns gestos. Por isso, uso muita química, música e jogos”, explica.

Aprender o idioma brincando

Os especialistas ressaltam que brincar em ambientes descontraídos é a melhor maneira de se aprender uma nova língua.

Tudo deve ser feito de um jeito muito lúdico e cheio de ação. “O ideal nessa fase é aprender fisicamente o inglês”, recomenda Marcelino. Para a aprendizagem de preposições, é importante que o pequeno levante e coloque o livro on the table. “O conhecimento passa a ser concreto e significativo para ele”, conta Denise. O repertório também deve ser conhecido do pimpolho. “Não dá as palavras cereja ou piano se isso não faz parte da realidade da criança”, exemplifica Raquel Jelen Lam, bacharel em Letras e diretora da escola Red Baloon, que ensina inglês para crianças de 3 a 13 anos. “Tudo deve ser interessante para elas”, garante.

Na hora da aprendizagem, não há limite para o número de línguas que o baixinho pode aprender simultaneamente. Recomenda-se, porém, que idiomas diferentes sejam ensinados por pessoas diferentes. Se, numa família, a mãe fala inglês e o pai português, o pequeno sempre precisa tê-los como parâmetros distintos de idiomas. Na verdade, a criança cria uma referência importante com a pessoa que está ensinando a língua. Se, na idade pré-ecolar, o pai conversar com o filho em duas línguas, alternadamente, pode ocorrer distúrbios no aprendizado de ambos os idiomas.

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